Hoje não há receita (4).


Daqui.

Acho que já confessei aqui que um dos pilares da minha saúde é a meditação. Até há cerca de um ano atrás o único contacto que tinha tido com esta prática fora através de um conhecido que durante um mês viveu na Índia para aprender a meditar num templo budista. Pode parecer um passo arrojado, mas precisavam de conhecer a personagem para alcançar o porquê de eu durante tanto tempo ter suspeitado de práticas meditativas. Quem vai para a Índia com o objectivo de enriquecer o seu currículo profissional e aprender maneiras de auto-controlo para melhor manipular terceiros não recebe os meus aplausos. Na minha cabeça, a meditação não ganhou pontos.

E qual a melhor maneira de lidar com pessoas cheias de si mesmas? Rindo, pois claro. Uma tarde estava ele maldisposto e eu perguntei-lhe o que se passava. Respondeu-me “Hoje não meditei.” Ao que lhe pergunta uma colega rapidamente: “Não te deitaste? Passaste a noite toda de pé?”. Eu ri tanto e tão alto que a secretária do nosso chefe entrou na nossa sala a perguntar se no meu relógio já eram seis da tarde. 

Entretanto a minha vida mudou radicalmente e estas pessoas deixaram de fazer parte dela. E quando elas saíram, a meditação entrou. Meses depois, em conversa com um amigo que me confidenciou estar a passar por um período de grande ansiedade na sua vida, procurei maneiras de ajudá-lo e todos os artigos que o google me apresentava falavam de meditação. Agora perguntam vocês, porque não te sentaste antes com ele a conversar, lhe deste um abraço e ofereceste um chá? Em primeiro lugar porque ele é inglês e mora em Cambridge e segundo porque não gosta de chá. Parece contraditório, mas não, é a mais pura das verdades. Então tentei apoiá-lo da melhor maneira que consegui, googlando “anxiety”. E foi numa dessas pesquisas que encontrei o Headspace, um projecto da autoria de Andy Puddicombe, um monge budista / desportista / artista de circo. Como também não sou a pessoa mais tranquila do mundo e o programa é gratuito, resolvi vencer a minha resistência inicial à meditação e comecei pelas primeiras dez sessões, cada uma de dez minutos. Não podia recomendar ao meu amigo nada que não tivesse testado primeiro, certo?

O famoso “Take 10” às primeiras vezes não encaixou bem comigo. Sentia grande dificuldade em sentar-me por tanto tempo, concentrada naquela voz suave que me guiava por caminhos tão tortuosos como os meus pensamentos. Começava por inspirar e expirar fundo quatro ou cinco vezes, com energia suficiente para ser ouvida por alguém ao meu lado. Sentada confortavelmente na cadeira, começava a sentir comichões em todo o lado mal fechava os olhos. Não sabia se havia de descansar as mãos nos braços da cadeira, se nas pernas. Não conseguia sentir o chão debaixo dos meus pés porque estava de meias. Qual o ponto de contacto com a cadeira? Sei lá! E é suposto sentir aquela “rising and falling sensation” da respiração exactamente onde? De cada vez que me decidia a meditar, sentia que não o estava a fazer bem. Forçava-me a seguir a voz e rapidamente me distraía. 

“Tanto silêncio… O que estarão os gatos a fazer? Ah sim, inspira um, expira dois… De certeza que aqueles sacanas estão a arranhar-me o sofá todo… Medita, medita… Carlota não persigas moscas em cima do computador, estou a tentar relaxar!… Um, dois, três, quatro… À procura das zonas de tensão no corpo… Será que posso responder TODAS? Ok, isto não está a resultar, são menos dez minutos do dia em que trabalho, parece que fico mais ansiosa obrigando-me a estar tanto tempo parada e sinto o desconforto a colar-se-me à pele …”

A vontade de desistir foi imensa, mas perseverei. O google continuava a garantir-me que a meditação tinha resultados comprovados no controlo da ansiedade e o Andy mantinha que não havia vencedores nem vencidos no que à meditação diz respeito. As técnicas aperfeiçoavam com o tempo e ele parecia estar sempre um passo à frente das minhas dúvidas, inquietações e dificuldades. Não quis deixar o rapaz a falar sozinho e todos os dias me sentava dez minutos para praticar a minha capacidade de estar presente no momento, a minha respiração, a reconhecer e a aceitar todas as tensões no meu corpo. Aprendi a dar um passo atrás em relação aos meus pensamentos, a vê-los passar à minha frente enquanto me imaginava como um céu azul. Eles, as nuvens cinzentas, eu a calmaria em pessoa a vê-los passar, aceitando-os sem julgar até deixarem de ter poder sobre mim. Tentei levar esta tranquilidade para o meu dia a dia, aprendi a respirar  sentindo o ar passar pelos meus pulmões, o peito a subir e a descer pausadamente. Comecei a ter pequenas epifanias horas depois da meditação. Pensamentos bloqueados que subitamente me pareciam bastante mais claros. “Como é possível que não tivesse visto isto antes? Reflecti sobre esta situação tantas e tantas vezes, analisando-a de todos os ângulos possíveis…” Pois, remoí. 

Dos dez minutos diários, passei para os quinze. A transição não foi suave, mas todos os dias a minha agenda me relembrava que esse era um dos compromissos que devia manter. E mantive-o. Se não demorei quinze dias, demorei outros tantos, mas fui vendo os resultados e mal passei para os vinte minutos de meditação diária, senti-me um BUDA! Por esta altura já andava a chatear toda a gente à minha volta para começar a meditar, porque se a meditação estava a ajudar a reprogramar o cérebro de uma ansiosa como eu, então não havia razão para não ajudar todos os outros. 

“Ah não tenho dez minutos para meditar!” 
“Toda a gente tem 10 minutos por dia!”
“Entre filhos e trabalho, nem me consigo coçar!”
“Tens prisão de ventre? Se sim, passas mais de dez minutos sentada. Aproveita-os a meditar!”
“Já meditaste hoje? Já meditaste??? JÁ MEDITASTE?!” 

Confesso que as minhas tácticas de marketing são talvez demasiado agressivas e devia utilizar todo aquela consciência adquirida na meditação para não obrigar meio mundo a ser como eu. Por outro lado, quem tem dúvidas se necessita de relaxar, eu consigo elevar os seus níveis de stress ao ponto de toda a gente precisar de, pelo menos, dez minutos longe de mim. E sabem o que podem aproveitar para fazer nesses dez minutos? Meditar!!

Ainda hoje me sento em frente ao computador, de auriculares nos ouvidos e a primeira tarefa que me obrigo a completar é meditar. Não é fácil abstrair-me do barulho. O lá de fora já aprendi a lidar com ele, o de cá de dentro é mais complicado, talvez porque o objectivo não seja retê-lo, mas aceitá-lo para que se liberte. Acredito que com o tempo a meditação vai deixar de ser uma tarefa a cumprir e hão-de ser muitos mais os dias em que me sento feliz por investir estes minutos que se traduzem em mais qualidade de vida. Até se tornar um hábito e conseguir vivê-lo com naturalidade há toda uma aprendizagem. Para quem como eu sempre se congratulou em ser capaz de realizar várias tarefas ao mesmo tempo, meditar é um grande desafio. Contar os minutos até que a meditação termine (ou já agora qualquer outra actividade do dia a dia), representa também que há algo a melhorar porque não estamos a viver no momento e isso é meio caminho para uma vida mais ansiosa e menos feliz. E se, como eu, verificarem que em vez de estarem a meditar vinte minutos por dia estão a aproveitar esses momentos para fazer a lista das compras do mês de cabeça, não há problema. Inspirem fundo e comecem de novo. 


Vídeo retirado do site kottke.org


Comments

  1. Tenho o headspace há que tempos no telemovel e ainda não consegui fazer mais do que 3 dias seguidos. Ler o teu texto deu-me muita vontade de experimentar outra vez. Acho que vou recomeçar hoje. Depois logo te digo o resultado. Mas provavelmente vou passar os 10 minutos a pensar o que fazer pata o almoço. Ou a dormir, também é uma hipótese... :P

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    1. o sono é daqueles obstáculos que se instalam depois de ultrapassarmos a ansiedade de estarmos pelo menos 10 minutos sentadas a meditar, se bem que a sensação de relaxamento é fantástica. se conseguirmos ultrapassar esses dois extremos as recompensas são excelentes! eu lembro-me de te falar do Headspace, vínhamos da Feira do Livro a descer a Avenida nos Santos!

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