Das ausências.

Nunca me aconchegaste na cama. Nunca me puseste a mão na testa quando tinha febre. Nunca passaste uma noite acordada para garantir que eu dormia bem. Nunca perdeste uma tarde para brincar comigo. Nunca me levaste aos pastéis de Belém. Nunca me compraste algodão doce no Jardim Zoológico. Nunca me deste nada sem esperar algo em troca. Nunca fizeste parte do meu mundo e eu nunca fiz parte do teu. 

Foste a Rosa porque eu já tinha um Avô e uma Avó e não percebia o porquê de acrescentar um terceiro elemento ao par. Ela aconchegou-me na cama. Pôs-me a mão na testa quando tive febre. Passou várias noites acordada para garantir que eu dormia bem. Brincava comigo tardes inteiras. Ele levou-me tantas vezes a lanchar aos pastéis de Belém. Comprou-me algodão doce e pipocas no Jardim Zoológico. Eles deram-me o mundo sem esperar nada em troca. Tu aparecias e desaparecias como te convinha.

A tua ausência era um conforto. Uma presença pela negativa. A confirmação de que um algarismo extra não cabe num par. Seria extremamente ambicioso dizer que aprendi a gostar de ti. Gostava de tudo aquilo que esperava que fosses e que não eras capaz de ser, mas tentei aprender a conviver contigo e com o que tu não eras: a avó preocupada, a avó maternal, a avó boa. O que tu eras e a sua ausência chegavam-me de mãos dadas e tinha de abrir a porta a ambas e deixá-las entrar. Nem sempre o consegui fazer e isso há-de perseguir-me para sempre, o não ter conseguido ser superior a todas as tuas fraquezas, ter esperado mais do que alguma vez estiveste disposta a dar-me. Desculpa-me por não ter conseguido gostar de ti como eras.

Vou recordar as notas positivas, se as encontrar. A tua determinação, a tua independência e a tua arrogância. O amor que o avô tinha por ti. O que ele, quando te olhava, mais ninguém conseguia encontrar. Nos teus cabelos loiros - agora já brancos - e nos teus olhos azuis - agora já baços - ele tentou formar uma família e tu presenteaste-nos com a tua ausência. E agora que tu já não és, que tu já cá não estás e que já sei o que nunca serás, a que hei-de dizer adeus se nunca foste nossa, só tua?

E tudo aquilo que te fazia única, também te fazia menos humana, num ciclo vicioso que começava e acabava em ti. As ausências que criaste, os espaços em branco que nunca te dispuseste a completar, a tua determinação em seres tu mesma afinal não te libertou de, no final, ficares reduzida à fragilidade que  nos nivela a todos.

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