WTF (Where's The Food)?



Em tempos já aqui mencionei os pilares para manter a minha saúde a funcionar como deve ser: ler bons livros; comer comida saborosa, saudável e nutritiva; exercício físico (de preferência correr); e meditação. CORPO/MENTE, para quem ainda segue a tradição cartesiana de os separar em duas entidades distintas. Não é o meu caso. Em breve poderemos explorar melhor cada um destes pilares. Por outras palavras, eu escrevo e vocês lêem.

Se conseguir manter o equilíbrio entre estes quatro pilares a minha vida flui muito mais naturalmente, sem altos nem baixos, sem grandes ansiedades. Claro que isso não significa ficar obcecada por correr três vezes por semana (nem os meus joelhos apreciariam tal compromisso) ou passar por uma fatia de bolo e não lhe dar uma dentada. No meu entender "saudável" não é sinónimo de restrição, significa antes manter uma relação positiva e consciente com tudo o que nos envolve, comida e não só. Faz-me uma impressão tremenda ver publicações de fotografias com comida deliciosa com o respectivo comentário: "hoje mereço porque já treinei" ou "este fiz para a família, aqui não entra!".

O mesmo vale para a obsessão com a popular "clean food" ou os "guilty pleasures". Embora seja 100% a favor de uma alimentação livre de alimentos processados e natural, sou contra alimentar qualquer tipo de restrições que possam descambar numa relação pouco saudável com a comida e com o nosso corpo. Não vou associar sentimentos de culpa a uma refeição, caso contrário lembro-me da minha Avó a mandar-me terminar a sopa quando não me apetecia porque os meninos de África não tinham nada no prato. A não ser, claro, que o que esteja a comer não considere comida (por exemplo, carne, o que para mim é o equivalente a servir os meus gatos ao jantar porque culturalmente em Portugal não se comem cães nem gatos, mas sim vacas, porcos e galinhas).

A própria noção de "comida limpa" é potencialmente nefasta, porque se contrapõe a quê? Comida suja, certo? E para mim, "comida suja" é apenas e não mais aquela que comemos e que nos faz sentir mal porque nós deixamos e alimentamos a ideia de que somos de alguma maneira imperfeitos porque consentimos com esse alimento. E sentir mal acerca do quê? Prefiro contribuir para dar ao meu corpo o que ele merece porque gosto dele e não porque quero alcançar uma determinada estética ou ideal de beleza e saúde cujo perfeccionismo se torna contraproducente. Mesmo em relação ao açúcar, com todos os malefícios e sendo um "ingrediente" que eu qualifico como estando nos antípodas de tudo o que devemos introduzir no nosso corpo (no pun intended...), se numa refeição me apetecer sobremesa, como-a. Não é para comer todos os dias e não vou estragar um momento agradável e de convívio num pesadelo porque da lista de ingredientes dessa sobremesa consta açúcar. Posso é optar por adoçantes mais naturais e benéficos, como é o caso das tâmaras, quando cozinho cá em casa a maior parte das vezes.

Equilíbrio, gente!

Existe muito mais na comida do que alimento. Existe toda uma rede de relações e de significados, estruturas de poder e de conclusões a retirar. Existem artigos em antropologia versando desde a arte de governar a obesidade de Jamie Oliver a toda a obra do falecido Sidney Mintz sobre o açúcar e a soja enquanto linguagens para compreender a economia mundial. Existem também as reivindicações da Bela Gil - aquela que se autodenomina "a vegetariana que come carne" ou, por outras palavras, aquela que se libertou dos rótulos - que constantemente se debate pelo retorno ao orgânico, à comida de verdade, à taxação do açúcar (não confundir com a taxação das bebidas açucaradas em Portugal de um governo que na mesma hora prometeu milhões para recuperar a indústria agropecuária nacional,  cedendo ao lobby de uma das atividades mais poluentes). Bela defende muito a necessidade de conhecermos o que comemos, porque o fazemos, de comprarmos comida sem listas de ingredientes, mas sim na feira, e de mantermos relações tão próximas com o agricultor que nos vende legumes como com o médico e com o farmacêutico. Bela defende uma politização da comida, o direito de reivindicarmos o que é o melhor para nós e de que as leis reflictam essa preocupação com a nossa saúde e com o meio ambiente.

Gostaria muito de adiantar a discussão questionando-me como poderemos ser realmente cidadãos activos se nos movemos na lama da precariedade, mas vou deixar que a Bela me ajude a cozinhar e fale por mim:

Retirado da página de facebook da Bela Gil.

Farofa de couve coração


~ Ingredientes ~

receita adaptada de Bela Cozinha

1 fio de azeite
1/2 cebola picada
2 dentes de alho picados
1 fio de azeite
5 folhas de couve coração cortada muito fitinha
1 1/2 chávena de farinha de mandioca 
sal
azeitonas


Numa frigideira refogar a cebola e o alho no azeite até que fiquem translúcidos. Adicionar a farinha de mandioca e cozinhar em lume baixo até que comece a dourar. Temperar com uma pitada de sal e adicionar a couve. Cozinhar mais uns minutos até que a couve murche. Verificar o sal e servir salpicado com azeitonas.



Tempo de preparação: 30 minutos

Dificuldade: fácil
Serve 4 

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