"I think influence is used as a nice word for plagiarism." - Gilbert Gottfried


Quando a minha irmã Margarida nasceu tinha eu 11 anos. Lembro-me dos seus olhos enormes e de como me fitavam, cada vez maiores, à espera que a entretesse. Comecei por lhe contar todas as histórias que conhecia. Os anos foram passando e as histórias foram-se esgotando. Antes de ir dormir, para conseguir que se distraísse enquanto comia a sopa, a qualquer hora que se lembrasse ela pedia que lhe contasse uma história. E eu fazia-o com gosto, porque na idade dela eu era igual.

Até que um dia não consegui que adormecesse e, em desespero, lembrei-me das aulas de História. O meu professor do 5º ao 7º ano era um contador nato. Eu bebia as suas palavras, nunca me esquecia de um pormenor do que ensinava porque ele, como poucos, conseguia cruzar factos com narrativas e manter-me absorta e capaz de fazer as ligações necessárias sem necessitar de livros ou manuais com diagramas e esquemas. Cruzadas na Terra Santa - Filho Segundo D. Henrique - Guerra Santa na Península Ibérica - D. Teresa e D. Afonso de Castela - D. Afonso Henriques e a sua espada Mata-Mouros. Vêem? Ainda me lembro. Recordo-me também do "Booom!" o canhão utilizado nas guerras do Mestre de Avis contra Castela e daquele traidor que voou da janela do Terreiro do Paço durante a Restauração. Bons tempos.

Entretanto os meus conhecimentos de História de Portugal tornaram-se cada vez mais escassos face à imaginação e às insónias insaciáveis da minha irmã. Quanto mais a alimentava, mais parecia ter fome de histórias. Até que um dia, teria eu 14 anos, decidi sentar-me em frente ao computador e escrever um original. Uma história nunca contada, directamente para consolar a minha irmã antes de adormecer. E foi assim que nasceu "O crocodilo e as batatas fritas". Escrevi, imprimi e li à minha irmã esta história as vezes que foram precisas até se cansar dela e pedir mais. Entretanto cresceu, arranjou um namorado e nunca mais quis saber de mim. Fim da história. 

Não, há mais! Esperem.

Estaria eu talvez no 8º ano quando me inscrevi nas aulas de teatro no Centro Cívico de Carnaxide em horário pós-laboral. Estas eram dadas por uma actriz, pintora e escultora local - grande artista!! -, que morava no meu prédio e que recebia os seus 10 contos por mês por umas aulas miseráveis. Independentemente da qualidade das mesmas, eu adorava sair depois de jantar e encontrar outras pessoas com o mesmo interesse no teatro que eu. Para além do percurso casa-colégio-casa, esta era a minha única oportunidade de apanhar ar fresco.

A minha mãe detestava a professora. De-tes-ta-va. De cada vez que lhe passava o cheque mensal escrevia "Dona Olga" ignorando todas as referências e curso superior - supostamente de arquitectura - que lhe mereciam outro tratamento. Eu sempre achei que a minha mãe exagerava e que no fundo era uma maneira distorcida de enviesar as minhas saídas nocturnas, por isso resistia a todas as tentativas que tomava para me desmotivar do teatro.

Até que as aulas começaram a perder a graça. Líamos umas peças clássicas que ninguém entendia muito bem e cujos protagonistas ostentavam uns nomes estranhíssimos em grego, sentadas em volta de uma mesa de escritório. Às vezes fazíamos uns exercícios corporais que eu considerava extremamente pornográficos para a minha idade. Até que a professora decidiu mudar a estratégia. Sugeriu que apresentássemos uma peça mais actual, dirigida às crianças porque isso proporcionar-nos-ia a possibilidade de a colocarmos em cena rapidamente. 

Seguiu-se a escolha da peça. Corremos todo o repertório dos filmes da Disney, mais as histórias clássicas da infância. Nada agradava à maioria. Até que eu lá ao fundo decidi dizer "Eu escrevi uma história para crianças." Ficaram todas a olhar para mim, já que eu raramente falava. Limitava-me a chegar com a professora e a sair com ela em direcção ao prédio onde ambas morávamos. Esperava por ela à saída e acompanhava-a à chegada. Perguntei se queriam ler, mas como só tinha uma cópia pediram-me que lesse alto para todas. Quando terminei lembro-me de levantar os olhos da folha e de fitar várias caras que me olhavam fixamente a sorrir. Ficou decidido que "O crocodilo e as batatas fritas" seria a primeira peça que iríamos representar para as crianças de Carnaxide.

Entretanto a professora - já mencionei que também dava aulas de artes plásticas no centro cívico? - achou que seria mais interessante para os miúdos que a peça fosse representada em fantoches. Passámos várias aulas a construir os bonecos em pasta de papel. Depois outras quantas a pintá-los. Depois outras a vesti-los. A aula de teatro reduziu-se a meia dúzia de gatos pingados agarrados a uma réstia de esperança de que aquele trabalho não tivesse sido todo em vão e a peça viesse efectivamente a ver a luz do dia.

A minha mãe, entretanto, espumava da boca. Dizia que a Dona Olga se preparava para me roubar a peça, que eu deveria registá-la o mais depressa possível. Eu continuava a considerar o seu excesso de zelo totalmente exagerado, mas acompanhei-a à Torre do Tombo para registar a obra. Aparentemente não era ali o lugar certo para o registo ou faltava mais um passo qualquer na longa escadaria da burocracia que não lhe apeteceu subir e a sua vontade de desmascarar a professora de teatro lá se esfumou face às minhas insistências e resistências. 

Quando uma noite a Olga me viu a mim e ao resto da turma desanimadas com as repetições sucessivas da representação em fantoches da peça surgiu com a ideia de uma reportagem. Aparentemente uma revista qualquer queria fotografar-nos com os fantoches para publicitar a peça. Fomos a um estúdio, tirámos imensas fotos e realmente aparecemos num artigo numa revista qualquer cujo nome não me recordo. Três ou quatro resistentes das mais de vinte inicialmente inscritas nas aulas de teatro, sorridentes, cada uma agarrada ao seu fantoche. E depois mais nada. Continuaram as mesmas representações repetitivas atrás de um biombo, todas as segundas-feiras à noite. Até que uma das minhas colegas decidiu cortar o mal pela raiz e anunciou que não se tinha inscrito para aulas de trabalhos manuais, que estava farta de esperar pela tal peça para crianças que nunca mais acontecia e que não chegava. Seguiram-se as outras duas colegas, até que acabei eu sozinha, com a Olga a dizer que se fosse preciso continuava só comigo. Foi do mais triste possível. Acreditem, não querem ser a queridinha da professora quando já começam a duvidar das suas intenções.

As aulas de teatro no centro cívico terminaram, poucas foram as vezes que voltei a ver a Olga pelo prédio, embora me tivesse cruzado com ela nas revistas cor de rosa e em alguns papeis manhosos da ficção nacional. Até ao dia em que, ao passar pelo centro de Carnaxide, encontro a Olga numa linda fotografia, rodeada de crianças e com os fantoches que tínhamos criado, num cartaz que anunciava a peça "O crocodilo e as batatas fritas". Como é óbvio que ouvi um grande "EU AVISEI-TE" da minha mãe. Sem a obra registada pouco havia a fazer para me proteger a mim e à história que eu tinha escrito para a minha irmã mais nova, transformado em peça de teatro e esperado todos os dias que se tornasse real.

Recentemente dei-me conta que o meu blogue não está registado. Mais de 1000 publicações, receitas, imagens e textos. Tudo deitado ao vento para as Olgas desta vida usurparem. Eu não sou muito de dar razão à minha mãe, não vá ela ficar convencida, mas neste caso não vou voltar a cometer o mesmo erro. O Limited Edition, o meu blogue que começou como uma brincadeira, é actualmente uma marca registada. Tudo o que aqui está pertence-me. Tudo o que não é meu está devidamente citado e referenciado. Agradeço que quem se "inspire" nas minhas palavras e nas minhas receitas me cite,  tal como eu faço e tal como a lei manda. Porque se até recentemente não tinha este trunfo do meu lado e me deparava com algumas pessoas muuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuito inspiradas nas minhas publicações - aquelas que passam a vida a aparecer nas minhas estatísticas diárias e que me dá imenso gozo encontrar por lá por uma série de razões, mas que não me encontrarão nas estatísticas dos seus blogues de certeza -, agora já tenho maneira de me proteger tanto a mim como ao meu trabalho. Está tudo em meu nome e quaisquer interpretações livres do que aqui lêem serão devidamente analisadas. 

"I think influence is used as a nice word for plagiarism." - Gilbert Gottfried. Esta citação está publicada no meu blogue quase desde os seus primórdios. Pensei que fosse o suficiente para demover algumas situações desagradáveis e pessoas mal intencionadas. Pelos vistos não. Tudo bem. Desta vez a história vai ter um desfecho diferente. Ou pensavam que sou tão totó hoje como era há 20 anos atrás?

© 2012-2017
Todos os direitos reservados a Maria Joana Teixeira.
Proibida a cópia ou reprodução total ou parcial nos termos do código do direito de autor e dos direitos conexos, sem autorização expressa da autora.
Registo de obra na Inspeção-Geral das Atividades Culturais n.º 407/2017 - Limited Edition

Comments

  1. Fim da historia iihihi! OMG! Já disse isto algumas vezes mas aqui vai mais uma vez, tens dom para a escrita! Sabe mesmo bem ler! OMG grande b!tx, entao roubou mesmo!! Olgas desta vida lol
    Muito bom assim aprendemos todos a respeitar o trabalho alheio :)

    ReplyDelete
    Replies
    1. há quem aprenda a bem e quem aprenda a mal. infelizmente para a primeira olga não fui a tempo, vamos a ver se a segunda olga não me escapa :p
      obrigada, és uma querida ;)

      Delete

Post a Comment

Popular Posts