Na saúde e na doença #6


Existem poucas relações para a vida como a que temos com o nosso corpo. Alguns relacionamentos vão e vêm, outros demoram-se mais tempo, mas o corpo, esse, acompanha-nos para onde formos. Sabendo isso à partida - a falta que nos faz uma mente sã, dois braços e duas pernas, um torso que vire e todos os orgãos a funcionar em harmonia -, mesmo assim por vezes perturbamos o equilíbrio homeostático natural e tomamo-lo como garantido.

Nem todos nós temos uma relação amigável com o nosso corpo. Há quem diga que muitas vezes abusamos dele: não o nutrimos com pensamentos nem alimentos que o fazem prosperar. A nós, mulheres, deram-nos o inimigo perfeito. A balança. Colocaram uma em cada casa de banho do país e fizeram-nos saltar para cima dela quase diariamente, em busca de números ideais que, inconscientemente, deveriam reflectir também o nosso valor enquanto pessoas. Esquecemo-nos do prazer da comida, da beleza de haver vários corpos diferentes e reduzimos a nossa perspectiva ao rácio entre o número na balança e os números das calorias. Como bem explicou a  escritora Naomi Wolf na sua obra Beauty Myth (1990):

“A culture fixated on female thinness is not an obsession about female beauty, but an obsession about female obedience. Dieting is the most potent political sedative in women’s history; a quietly mad population is a tractable one.”

Ficámos um pouco obcecadas com este movimento matinal: salta para cima da balança, salta de cima da balança. Comportando-nos como cangurus amestrados pelo caminho esquecemo-nos do que realmente interessava e do que realmente estava em causa. Foi aí que a relação com o corpo, que deveria ter sido mimada e estimada, se tornou frágil. Dissemos-lhe vezes sem conta que não gostávamos dele, das suas curvas a mais, dos seus ângulos a menos, das suas vicissitudes e idiossincrasias. Olhámo-nos no espelho pela frente e por trás (não? ok, fui só eu então) e só encontrámos defeitos. Tomámos como garantidos todos os batimentos do coração, o ar que nos inundava os pulmões, os arrepios na espinha e as unhas a crescer ao ritmo do cabelo. Dissemos que não gostávamos do que víamos, que preferíamos ter pernas mais fortes, a pele mais morena, a barriga mais tonificada. Mas mesmo assim, o corpo continuou a fazer o que sempre fez: continuou a ser corpo. Desempenhando as suas funções e aguardando pacientemente que as palavras mudassem e que o valorizássemos com comida que o nutrisse e lhe permitisse optimizar o seu trabalho, o corpo manteve-se calado. E enquanto esperava que pensamentos mais brandos surgissem e o fizessem sentir valorizado, o corpo continuou à espera.

Infelizmente por vezes só voltamos a tomar consciência de como estávamos a negligenciar essa relação que se queria para a vida quando este acusou pela primeira vez que estava à escuta. Quando o corpo começou a falhar, aí tivemos de ser nós a prestar atenção. Ao primeiro alerta, ao primeiro sintoma, a relação teve de mudar. Penso que a história da Maria João vem relembrar-nos precisamente disso. Como uma relação com a comida só será saudável e equilibrada se não se prender em números da balança e cálculos de calorias. E como quando nos apercebemos que é altura de mudar e tivermos consciência que é no equilíbrio que está o ganho, sabemos que esta é verdadeiramente "a" relação a estimar, tanto na saúde como na doença. 

Para conhecerem a história da Maria João e a receita destas deliciosas trufas de millet e cacau, sugiro que passem hoje pelo Ponto de Rebuçado, o blogue convidado do #desafioreceitasaudável.


Se quiserem também participar neste desafio poderão fazê-lo. Enviem-me um email para lim.edition2012@gmail.com e guardo-vos um espaço no calendário. Se reproduzirem nas vossas cozinhas alguma das propostas aqui apresentadas, utilizem o #desafioreceitasaudável e partilhem connosco as vossas versões e interpretações para que todos possamos contribuir para um estilo de vida mais saudável que passa pela comida, mas não se esgota nela.


SaveSave

Comments

  1. Desde pequenas que a sociedade faz por formatar o nosso modo de pensar quanto ao corpo. E isso é absolutamente tóxico. O que importa é ser saudável. Comer bem, alimentos nutritivos, e em quantidade suficiente, fazer exercício q.b. (nada de sedentarismo, mas nada de exageros), enfim, cuidar de nós sem procurar alcançar objetivos e ideais de corpos estabelecidos por outros e não pela nossa saúde.
    Para mim a palavra dieta foi abolida e banida do vocabulário. E estou a dar-me muito bem com esta atitude.

    Excelente tema!

    ReplyDelete
    Replies
    1. sim, e a noção de saúde varia de pessoa para pessoa. há princípios transversais, mas cada corpo é um corpo e é muito importante tomar também atenção às particularidades sem generalizar. não é um corpo gordo que necessariamente indica desleixo ou falta de saúde. há várias maneiras de cuidarmos de nós, não é necessário incorporarmos modelos que mais fazem por nos restringir do que nos ajudam a tranformarmo-nos na melhor versão de nós.
      obrigada pela visita!
      beijinho

      Delete
  2. Este post vem mesmo a calhar. No dia da mulher. Saber que há mulheres que se deixam manipular por imagens e ideais muitas vezes saidos da cabeça de alguns homens (parvos), deixa-me louca. Só temos um corpo, só temos uma vida. Não gostarmos de nós próprias desde crianças é a maior parvoíce e erro do mundo e na maioria das vezes, culpa de uma mãe e de um pai que não souberam valorizar a filha que tinham. Felizmente sempre tive uma mãe e um pai top que me transmitiram os valores certos, felizmente sempre fui inteligente o suficiente para não me deixar manipular por um estereótipo inculcado por uma sociedade decadente, felizmente sempre tive uma personalidade forte e vincada e não me deixei nunca manipular por nenhum homem com um ideal de mulher diferente do meu. E principalmente, somos nós, as Mulheres, que temos os filhos, temos esta capacidade incrível e fantástica de poder gerar uma vida dentro de nós, criar uma mini pessoa. E para isso precisamos de um corpo são numa mente sã. Feminista demais??? ;) Uma coisa é certa, uma alimentação saudável ajuda em muito na auto estima. Altas, baixas, gorditas, magras, loiras, morenas, ruivas, com sardas, com cabelos brancos and all that shit, girls rock! Como saudável, mas a minha loucura, essa é indomável ;)

    ReplyDelete
    Replies
    1. quando marquei a participação da maria joão para este dia nem me lembrei da data que se celebra, nem sabia que tema traria. eu acho que não apenas os homens, mas muitas mulheres (e sim, começa com as mães...) são responsáveis pelo machismo, misoginia e sexismo que existem na nossa sociedade. são as primeiras a julgar as outras por serem gordas, a olhar de cima abaixo quando se encontram, a falar mal nas costas. aos homens interessa pouco os cabelos brancos e as estrias. a outros interessa manter diferenças salariais consideráveis ou que as mulheres assumam dois trabalhos a cada dia, mas espero que isso acabe brevemente.
      nunca fui apologista do dia da mulher, nunca achei que valesse a pena este tipo de discriminação positiva. mas sabes, depois do que se tem visto nos últimos meses na sociedade ocidental - porque no resto do mundo infelizmente há muita coisa que tarda em surgir - comecei a questionar se mais dias destes, manifestações e revoltas não fariam outra vez mais sentido. é honrar o que as nossas avós não tinham e que nós assumimos como garantido que faz com que dias como este ganhem outra importância. não é com flores que lá vamos, mas extrapolando o espírito e os valores do dia ao ano inteiro.
      beijinho e muita loucura saudável é o que queremos!! ;)

      Delete
  3. Tão lindo o teu texto :)
    Senti cada palvra, por mim e por todas as mulheres que me procuram para as ajudar.
    O mais triste sabes o que é ? É que tomamos consciencia de tudo isto que disseseste, percebemos que estamos a viver uma escravatura, mas continuamos a comportar-mo-nos da mesma forma. Porquê???

    ReplyDelete
    Replies
    1. exacto, é necessária toda uma desprogramação do nosso cérebro, da maneira como fomos educadas, do processo de socialização e das imagens dos media que nos inundam diariamente para conseguirmos racionalizar que todos os corpos são bonitos e que a estética é apenas um valor cultural. há muitas pessoas classificadas como gordas que são saudáveis e isso é mais importante do que caber no estereótipo seja de quem for.

      Delete
  4. Gostei mesmo de te ler, aliás de vos ler.
    E foi importante ter sido publicado no dia da mulher, acho mesmo um alerta óptimo.
    E ainda melhor, as trufas da doce Maria João :)
    Um beijinho.

    ReplyDelete
    Replies
    1. isso do dia da mulher foi coincidência, mas calhou mesmo bem, realmente! :)
      as trufas na versão da maria joão ou da sara são super tentadoras!!
      beijinho

      Delete

Post a Comment

Popular Posts