Minimalista, eu?



Imagem retirada daqui.

Quit your job. Start a fight. Prove you're alive. If you don't claim your humanity you will become a statistic. You have been warned.” - Tyler Durden

A primeira vez que ouvi falar em consumo consciente foi há vários anos atrás numa missa na Igreja do Campo Grande. Numa noite de Quaresma assistia eu ao baptizado de uma pessoa conhecida, que já em idade adulta decidiu receber este sacramento, quando, sentada naqueles bancos frios e corridos, vi o senhor padre subitamente pegar no alto da cabeça da baptizanda. Por inspiração divina ou talvez porque já conhecia um pouco a pessoa em questão, proferiu então estas palavras “Devemos ser mais conscientes nas compras que fazemos e menos consumistas.” E, num gesto rápido, mergulhou a cabeça da candidata na pia baptismal, tal qual um McNamara afundando-se nas ondas da Nazaré, pressionando até garantir que a mensagem tinha sido recebida com sucesso.

Fiquei simultaneamente curiosa e chocada com esta exibição. Quem diria que em vésperas da Páscoa, em pleno coração de Lisboa, um padre expressaria uma preocupação tão secular numa cerimónia cujo principal propósito se prendia com a salvação duma alma? Nunca pensei que pela sua mente poderia passar esta preocupação e que, antes de mergulhar a baptizanda na pia, como se deixando para trás os pecados que não deveriam transitar para a sua nova vida como cristã, o consumismo fosse um deles. 

Esta experiência mística ficou guardada na minha memória e só recentemente ressurgiu na minha consciência, altura em que novas preocupações começaram a erguer-se na minha vida. Verdade seja dita, não verifiquei resultados positivos após o ritual, daí talvez o meu desalento. A pessoa em questão, agora com a obrigação de conduzir uma vida mais ponderada, continuava a praticar um consumismo desenfreado. Mais anéis do que dedos, mais olhos que barriga. Anos depois abriu uma loja de roupa, sublimando os seus impulsos como o pirómano que em tempos acendia fósforos com o único intuito de os ver arder e que mais tarde se tornou no bombeiro que no seu quartel mais fogos apagava. 

Agora que reflicto até que ponto as mudanças registadas recentemente na minha vida me colocam perto de uma filosofia de vida minimalista, percebo que o movimento em mim não foi de fora para dentro, mas de dentro para fora. Não comecei a ver-me livre de calças nas quais nunca mais caberei, nos livros que nunca terei paciência de ler ou nas receitas que nunca experimentarei para aumentar a minha pegada minimalista no ecossistema.

A ausência de alegria com que muitos objetos comprados por impulso sobrecarregam a nossa vida, a despreocupação com a qualidade do que se adquire e a falta de consciência no momento da compra são comportamentos inversamente proporcionais a um estilo de vida minimalista. Todos os processos que originam uma peça e a conduzem até nós, a atenção ao impacto que esta terá no meio ambiente, nas relações humanas e laborais que a fabricaram, bem como na nossa própria vida, conduzem à busca de um estilo de vida mais simples. Destralha-se, organiza-se, simplifica-se e aumenta-se a produtividade. Retira-se o que está a mais e fica-se reduzido ao que realmente importa. Porém, só se chega a esta constatação quando tudo o que está em excesso foi objecto de um importante esforço de redução. Começando pelo que está manifesto, cedo se chega ao que se encontra latente. Noutras palavras, “o essencial é invisível aos olhos”… até que começa a ser. 

Acredito que o maior mal é a ausência de tempo. Este mal inverte-nos as prioridades. Trabalhamos demais para aproveitar tão pouco, muitas vezes para termos um excesso que nos afasta do que é essencial, ou, em muitos casos, para conseguirmos apenas sobreviver e reiniciar o ciclo quando o saldo do banco se esgota. Nem sempre podemos optar em que investimos os nossos minutos contados, mas também nem sempre sabemos como fazê-lo. Encontramo-nos rodeados de objectos, responsabilidades e emoções que não são as nossas. Reclamamos e não fazemos nada para mudar. "Compramos o que não precisamos para impressionar pessoas de quem não gostamos", como diria Tyler Durden

Quando recuperei o meu tempo, tudo o que estava a mais desapareceu naturalmente. As preocupações desnecessárias, as raivas mal atribuídas, os rancores mal resolvidos. Quando voltei a ter tempo para mim, a poder reflectir fora da loucura dos dias, restituí ao que me roubava o tempo que sempre deveria ter sido meu a importância que lhe era devida. Não passou apenas por me livrar da roupa que não me despertava alegria, ou do excesso de bibelôs nas estantes. Estes são os fins, não os meios. E preenchi a minha vida com o que realmente é relevante para mim - o meu marido, as minhas receitas, a minha escrita, os meus irmãos e os meus gatos - e não olhei mais de duas vezes para onde o meu coração não se detinha. E depois descobri o nome para a minha doença: penso que sofro de minimalismo. (1)

Este artigo saiu primeiro no site A Montra, com o qual colaboro mensalmente.

(1) Se quiserem saber um pouco mais sobre este tema recomendo, em português, os blogues The busy woman and the stripy catThe extra in the ordinary e Ana, go slowly. Em inglês, The minimalists e o documentário na Netflix Minimalism.

Comments

  1. Como sempre adoro as tuas palavras.
    Ler-te inspira-me .
    A vida também me levou a sofrer de minimalismo , embora ainda tenha um enorme caminho a percorrer , porque o difícil não é desfazer-nos de coisas, é livrar-nos de emoções, pensamentos, frustrações... isso sim custa...
    Obrigado por me relembrares do quanto isso é importante
    Abraço

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    1. e eu adoro as tuas palavras e saber que estás sempre desse lado :)
      talvez não soframos de minimalismo, talvez seja só maturidade e bom senso conseguirmos distinguir trigo do joio, em termos de pessoas e bens. é um caminho e não uma série de regras. ainda ontem passei a tarde com a minha irmã às compras no colombo e aproveitámos para passar um bom bocado. verdade seja dita que não voltei de lá carregada de sacos como teria feito em tempos e não foi o facto de estarmos no centro comercial que me fez sentir menos "minimalista". o que realmente valorizei foi o tempo dedicado à minha irmã, foi isso que me preencheu, não propriamente mais um par de botas (que ainda por cima nunca encontro no meu tamanho porque calço o 34! :p).
      beijinho

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