E tu, és feliz?



A felicidade é um conceito nosso. Branco, ocidental, moderno. Crescemos com essa ideia: devemos encontrar alguém que nos faça felizes, um emprego que nos faça felizes, uma casa onde sejamos felizes. Alcançar estes objetivos - que simultaneamente somos levados a acreditar que fomos nós que escolhemos, mas que também nos foram impostos - torna-se o mote das nossas vidas.

Não vou analisar a felicidade arqueologicamente. Certamente que ajudaria, mas não quero fazer desta publicação um ensaio. Mas posso procurar as raízes nas nossas vidas. As listas que fizeram por nós, os conceitos que importámos sem questionarmos, os caminhos que trilhámos para chegarmos ao fim da linha e, tendo tudo, parece que temos tão pouco. Certamente que existirão mais razões para sermos felizes do que muita gente. A velha argumentação do "Come tudo o que tens no prato que há crianças a morrer à fome em África" parece mais uma maldição do que um conselho. E no final continua a não ser o suficiente porque continuamos a medir a nossa felicidade face à bitola dos outros. 

E depois de olhar para dentro, olho para fora. A maneira como as pessoas conversam quando se encontram, medindo sucessos, tentando mascarar as suas vidas miseráveis, gozando dos outros que partem em busca dos seus sonhos, mastigando a inveja enquanto empolam o peito com as suas certezas importadas.  E no fundo, por mais que se esforcem por mostrar o oposto, também elas não são felizes. Podem sentir alguns momentos mais eufóricos: se a equipa ganhar o campeonato, se os morangos descerem de preço no Continente, se os saldos da Zara chegarem mais cedo. E voltam para as suas casas de sonho, conduzindo o carro da marca que as deveria fazer feliz e que lhes foi vendido com a intenção de as fazer chegar lá mais rápida e confortavelmente, despem a roupa que não lhes traz felicidade por mais peças que comprem, olham para os seus corpos magros e atléticos sentindo que há sempre algo mais a melhorar, e enfiam-se nos lençóis para mais uma noite de sonhos ébrios. Na manhã seguinte recomeçam em piloto automático, à pressa, evitando reflectir demasiado no que a noite anterior não conseguiu esconder.

Então, o que é a felicidade? E eu sou feliz? E tu, és feliz? E devemos realmente ser felizes? E o que é a felicidade realmente? Não sei, ainda não me libertei totalmente do que os outros à minha volta dizem. É por isso que luto, por um filtro mais eficaz, que me permita a mim e à minha família abafar o que não interessa e construir uma vida equilibrada, com as nossas regras e com liberdade. E se alguém me perguntasse aqui e agora o que é para mim a felicidade, só poderia responder uma coisa: a ausência de medo. 

Esta é mais uma das participações tardias no #desafioreceitasaudável, provavelmente a mais original porque, falando de comida, não traz uma receita. Chega pelas mãos da Filipa do Deixa ser e mostra-nos como encontrou o seu equilíbrio, quais as bases não alimentares que a ajudaram a comer com mais consciência. Espreitem o blogue da Filipa e vejam como a conquista do que definiu como sendo a sua felicidade se tornou na base para uma vida mais equilibrada.

Comments

  1. Não resisti a partilhar. Os teus textos deliciam-me sempre. Qual receita qual quê ;)

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    1. obrigada, carla! fico muito feliz que gostes do que escrevo. beijinho

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  2. Belíssimo texto, cheio de tantas verdades.

    Beijinhos,
    Clarinha
    http://receitasetruquesdaclarinha.blogspot.pt/

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  3. Não podia estar mais acordo com a Filipa. A verdade é que nos impõe coisas como se a vida tivesse uma ordem e só aquela. Quem ter fazer diferente é julgado e apontado. Andamos a viver à pressa e no automático e por vezes nem damos conta que somos manipulados pelo que é suposto sermos.
    Temos que ser felizes, sermos quem quisermos! Aproveitar a liberdade que temos para tal mesmo que isso fuja dos padrões.
    Beijinho.

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    1. Este texto é meu, não da Filipa.. ;) O que ela enviou para este desafio está no seu blogue.
      À parte isso, a liberdade de podermos ser quem somos (ou de o descobrir) é para mim a essência do que a maioria das pessoas associam a ser feliz.
      Beijinho

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