Banda desenhada, para que te queria?



E já estamos na segunda edição do Chapters & Scenes, uma iniciativa organizada pela Mariana do It's ok e que ocorre mensalmente em vários blogues. Reunimo-nos para escrever sobre um tema relacionado com cinema, literatura ou séries de televisão. No mês passado falámos sobre #girlbosses e esta semana debatemos BD. 

Vou ser-vos sincera. Há anos que não leio banda desenhada, se descontarmos os cartoons do New Yorker cuja temática política contemporânea me atrai. Porém, acho que estamos todos um bocado fartos de piadas direccionadas ao Trump. Aliás, o próprio homem é uma caricatura e, embora eu seja apologista que não há tema que não mereça uma boa gargalhada, isto tudo já não tem piada nenhuma e, honestamente, ninguém se vai rir quando o senhor decidir carregar no botão da bomba nuclear.  Aliás, se isso acontecer, ficamos todos sem dentes. E já agora, quando chega esse impeachment, cowboys?

Quis desta vez dirigir então a conversa para uma tema mais leve e a primeira banda desenhada que me surgiu na mente foi a da Turma da Mônica. Para quem não conhece estas "tirinhas" brasileiras, elas são da autoria de Maurício de Sousa e começaram a ser lançadas no final dos anos 50, chegando ainda hoje a vários países.

Esta turma mora no Bairro do Limoeiro e  é composta por vários personagens:

  • A Mônica, uma menina dentuça com um vestido vermelho, dotada de uma força sobre-humana e que se acode de um coelhinho azul de peluche para impor a sua vontade.
  • O Cebolinha, o eterno inimigo da Mônica que troca os erres pelos eles e tem o cabelo espetado, cuja maior motivação é roubar o coelho Sansão à amiga para lhe tirar a força, sendo que se encontra constantemente a conspirar planos infalíveis para levar a sua avante. Nunca resultam.
  • O Cascão, um menino com pavor de água, o parceiro dos planos do Cebolinha.
  • A Magali, melhor amiga da Mônica, que adora comida no geral e melancia em particular.


Estes são os protagonistas da maioria das aventuras, embora novos personagens tenham vindo a ser introduzidos com o tempo. Alguns inspirados nos filhos do autor, outros na realidade dinâmica da sociedade brasileira. Gosto especialmente do caipira Chico Bento, do seu pavor à escola e da sua vontade em trepar às goiabeiras do vizinho fugindo dos chumbos que este lhe atira, possuído.

Não vou aprofundar a componente social da Turma da Mônica, de como a protagonista fugiu ao estereótipo da donzela em apuros resolvendo os seus problemas sozinha, ou da Magali e do seu apetite voraz. O fascínio do Cebolinha pela sua arqui-inimiga pode ser facilmente transposto para aqueles amores entre crianças que se reflectem em brigas constantes nos recreios da escola e a aversão ao banho do Cascão relembra a realidade traumática de muitos pais na hora de obrigar os filhos a tomar duche antes de jantar. Anos mais tarde a Turma teve direito a um parque que adorava visitar um dia e actualmente podemos até seguir as suas aventuras no seu canal de youtube. Conheci-o hoje e fiquei muito feliz de ouvir a minha turma falar!


O que a Turma da Mônica tem para mim de especial é a lembrança que me traz da minha infância. Só comecei a ler esta banda desenhada depois dos meus pais se divorciarem e lembro-me de chegar a casa dele, nos dois fins de semana por mês em que ficávamos à guarda do meu pai, e de nos levar sempre a comprar os novos livrinhos que entretanto tinham sido publicados. A Turma da Mônica, o seu bairro onde as aventuras mais mirabolantes acabavam sempre com um final feliz, apresentava-se como um refúgio tranquilizador a outros dias mais cinzentos. Conseguia associar um personagem a cada um dos meus irmãos: a Inês, que nunca comia nada, era a Magali, curiosamente; o Zé, o Cebolinha porque gaguejava; eu era a Mônica. A prova de que as minhas irmãs mais novas, fruto do segundo casamento do meu pai, não fizeram parte deste imaginário que localizo numa altura muito específica da minha vida, é o facto de não as associar a nenhuma personagem. 

Os livros da Turma da Mônica tinham outra dimensão que mais nada na minha infância parecia guardar. Eram lidos por todos, excepto o meu pai que se limitava a comprá-los. A minha mãe, até a minha madrasta, todos liam esta banda desenhada. E, numa altura em que tudo parecia tão fracturado na minha vida, haver este ponto de união tinha para mim uma estima incomensurável. 

Talvez seja tarde para vos recomendar estas histórias. Quem sabe talvez não. Talvez estejam a passar por momentos de divisão e discórdia na vossa vida e precisem de um espaço onde se refugiar. Talvez tenham 7 anos ou então já são mais crescidos e não querem ser vistos a comprar banda desenhada para crianças. Mas neste mundo que cada vez infantiliza mais os adultos e os põe a pintar livros de colorir, talvez não seja totalmente inusitado que optem por uma banda desenhada deste género em vez de um copo de gin. Seja como for eu continuo a achar que a minha infância teria sido infinitamente mais triste se não tivesse ao meu lado a Mônica, o Cebolinha, o Cascão e a Magali.


Se quiserem conhecer as histórias apresentadas pelos outros blogues sobre banda desenhada, encontram-nas aqui:

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Comments

  1. Gosto tanto, tanto, tanto, tanto da turma da Mônica. Assim como de Mafalda, Peanuts, Garfield, etc. E, como te compreendo: também eu me refugiei muito nestas leituras numa altura menos boa bastante semelhante à tua. Adorava aqueles minutinhos de riso e descontracção, proporcionados por estas breves páginas. Todas as aventuras me faziam esquecer que o mundo é bem ruim, por vezes, e deixava-me embarcar pela vida destas personagens bem toscas, mas fofinhas.
    É maravilhoso que tragas isto para o teu cantinho e que partilhes algo que te diz tanto: torna este blogue ainda mais extraordinário.
    Acho até que me incentivaste a ir reler os inúmeros livros deste género que tenho <3
    Beijo enorme.

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    1. eu acho que na altura não funcionava como refúgio. hoje, olhando para trás, é que consigo ver como foram importantes estas histórias na manutenção de uma ideia de normalidade e de estabilidade nessa altura. deixaram as melhores recordações. obrigada pelas tuas palavras e por vires cá todas as semanas :)

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  2. Agora fiquei com vontade de ir comprar ♥ também me lembra muito a minha infância e se for ver nas caixas sei qual foi a primeira que comprei :) e nas férias comprava os almanacões que traziam as sopas de letras e os desenhos para pintar :D tenho uma colecção jeitosa de gibizinhos e ainda hoje sigo alguns deles no Instagram! ninguém é demasiado velho para a Turma da Mônica!

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    1. gibizinhos!! aos anos que não ouvia essa palavra. quando a li aqui senti-me novamente com 8 anos. obrigada pela partilha das suas recordações e pela visita. beijinho

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  3. Sempre foi a minha banda desenhada preferida ( e veja-se que até é coisa que não aprecio). Lembro-me bem do meu pai me a ler quando eu ainda não sabia. Lembro-me de serem a minha companhia nas idas à praia, nas viagens de carro e nas secantes festas de família .
    Guardo todos numa caixa, sou incapaz de me desfazer deles, e curiosamente também há uns meses atrás tive uma vontade incontrolável de ler e dei por mim na internet à procura destas tirinhas. Passei horas a ler!
    Ps: eu também era a Mónica :P

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    1. eu não tenho nenhum destes livrinhos comigo, acho que ficaram todos em casa dos meus pais ou provavelmente não sobreviveram às ocasionais limpezas gerais, porém tenho tido vontade de comprar um exemplar. acabo sempre por não adquirir nenhum, não sei porquê. acho que é como se fosse entrar novamente na infância e evitasse fazê-lo para preservar o que tem de bom. sabes quando voltamos aos sítios e eles estão completamente diferentes? penso que seja isso.

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