Bolos, feministas e minimalistas.




Existe um aspecto na minha incapacidade de ser menos afeiçoada a objectos materiais que ainda tenho muito por onde melhorar. Refiro-me à minha aptidão para coleccionar receitas. Estas podem chegar até mim em papel - livros, revistas, notas… - ou em formato digital - aplicações, blogues de culinária, vídeos de receitas nas redes sociais…. Seja o que for, eu guardo tudo. Aquela técnica que ainda não experimentei. O ingrediente que ainda não comprei cá para casa. A substituição mais saudável que ainda não tentei. Todas estas são excelentes desculpas que servem de combustível à minha incapacidade para parar de acumular receitas, sendo que as que já tenho, bem feitas as contas às cerca de quatro refeições que como por dia, serviriam para me alimentar a mim durante a vida inteira, ao meu marido e a um batalhão com o apetite de estudantes Erasmus em visita a casa dos pais no natal. Se parar por aqui, como podem ver, estou muito bem servida e variedade não me faltará. Já tempo…


Por isso ultimamente tenho feito um esforço hercúleo para cessar de acumular receitas e decidi começar parando de adquirir livros de culinária. Ao domingo, quando começo a planear as receitas da semana, sento-me no sofá com alguns dos meus livros abertos ao lado e vou explorando as opções. O primeiro passo para planear as refeições passa por saber como será a nossa semana. Será que o Manel vem jantar todas as noites ou vai ao estádio assistir a um jogo do clube-encarnado-que-não-será-nomeado? Tem reuniões até tarde e em que dias pensa ir ao ginásio depois de sair do banco? Quantas vezes almoço eu em casa durante a semana? Que leguminosas e cereais devo deixar de molho ao sábado? Que ingredientes estão a chegar ao fim do prazo ou que legumes já precisam de saltar para a sopa? Há bolinhas energéticas feitas para fintar a fome nos intervalos de escrita da tese ou vou lanchar pudim de kefir e chia? 



Para além de planear as refeições, planeio também os doces e sobremesas. Prefiro ter um bom bolo caseiro cujo cheiro anima a minha cozinha todos os domingos, do que gastar dinheiro em croissants na rua. E juntando assim o planeamento das refeições ao meu desejo de utilizar mais os livros de culinária que tenho já a tombar das prateleiras, encontrei este pão doce de lima e côco que experimentei fazer totalmente integral e resultou muito bem. 

Pode parecer um pouco maníaco da minha parte, mas a verdade é que todas estas questões são extremamente importantes numa alimentação saudável e especialmente para evitar o desperdício cá em casa (seja de comida, seja de receitas). Não me sinto menos mulher e mais dona de casa por organizar as refeições desta maneira, pelo contrário. Há diferentes tarefas e devemos especializarmo-nos no que fazemos melhor. Ele, por exemplo, tem imenso jeito para limpar a caixa de areia dos gatos, não vou negar-lhe esse prazer!

Por isso, antes de me acusarem de estar a trair o segundo sexo por ser eu a responsável por estas tarefas cá em casa e de me exigirem que queime o meu soutien, lembrem-se disto: primeiro, o género é construído e sermos inteligentes na gestão da casa não faz de nós empregadas; segundo, o soutien faz-me imensa falta e foi caro, por isso se quiserem, queimem o vosso.



Pão doce e integral de côco e lima

receita adaptada de A lighter way to bake de Lorraine Pascale, p. 142

175g de farinha de espelta integral
50g de côco ralado
1 colher de chá de bicarbonato de sódio
1 pitada de sal
1 ovo
200g de iogurte grego 
75g de açúcar amarelo
raspa e sumo de uma lima

Começar por ligar o forno nos 180º e por preparar uma forma de bolo inglês. Se não usar de silicone, como eu, untar com manteiga e polvilhar com farinha. Numa tigela grande misturar os ingredientes secos. Noutra mais pequena bater o ovo com o açúcar, a raspa de lima, o sumo e iogurte. Fazer um buraco no centro da tigela grande e aí colocar os ingredientes líquidos já batidos. Envolver com um fouet misturando poucas vezes para evitar que a massa fique muito pesada. Levar ao forno cerca de 45m ou até que o pão esteja bem cozido. Deixar arrefecer antes de desenformar.


Este artigo saiu primeiro no site d' A Montra/ The Windowpara o qual colaboro mensalmente.

Comments

  1. Gostei da lista de ingredientes, ficou um pão lindo e acredito que delicioso.

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  2. Que excelente aspecto =) este bolo ficou lindo e bastante apetitoso!

    De aprendiz a chef

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  3. Love it! Dizem que andar sem soutien faz bem às meninas :P
    Tenho aqui livros de culinária que nunca viram uma receita chegar ao prato... falta de organização por aqui.

    beijinhos

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    1. sofremos todas do mesmo mal... em relação aos livros de culinária e às meninas! ;)

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  4. Que rico,....
    Beijinhos,
    Espero por ti em:
    strawberrycandymoreira.blogspot.pt
    http://www.facebook.com/omeurefugioculinario
    https://www.instagram.com/marysolianimoreira/

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  5. «o soutien faz-me imensa falta e foi caro, por isso se quiserem, queimem o vosso.» Não diria de forma melhor. Fazermos certas tarefas não nos torna menos mulheres. Se nos deixássemos levar por extremismos, a minha casa estava sempre suja e desorganizada, pois, só vivem cá mulheres eheheh.
    Além disso, faz mais do que sentido que planeies como fazes, de outra forma, não conseguirias trazer-nos receitas tão apetitosas para que pudéssemos experimentar :D

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    1. e até parece que os homens são naturalmente não organizados, não é? acho que nós é que acabamos por perpetuar determinados estereótipos, que são tão injustos para nós como para eles.

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  6. Ficou tão bonito e sabia mesmo bem uma fatia, bjs

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