E por onde andaste tu nestes últimos meses, Joana?


Daqui.

Antes de mais, podem começar a tratar-me por Senhora-Professora-Doutora-Por-Extenso*, caso contrário não respondo. Sim, é verdade, já acabei o doutoramento! A verdade é que tecnicamente ainda não tenho o grau, falta aquela chatice da defesa da tese que não se prevê para breve e ainda bem, porque por razões de saúde mental, convém espaçar os picos de ansiedade. Já não bastou o dia da entrega e todo o receio de que alguma coisa corresse mal: que não conseguisse tirar todas as fotocópias a tempo, que a encadernação não ficasse como suposto, que houvesse erros impressos que já fugiam ao meu controlo. Quando se decidirem a agendar a apresentação oral do meu trabalho espero já estar psicologicamente recuperada deste trauma.

As últimas semanas de dezembro foram um emaranhado de muitas horas a trabalhar e poucas a dormir, como se se tratasse de um longo e interminável dia em que ora descansava alguns minutos, ora me sentava em frente ao computador a escrever, rever, corrigir ou editar. Nesse tempo interrompi tudo. As saídas de casa, as corridas, a meditação, os grandes cozinhados, o blogue, as redes sociais. Há quem diga que também suspendi temporariamente alguns duches, mas não resta ninguém vivo que o possa confirmar. Rejo-me pelo princípio de não deixar testemunhas. 

Tornei-me num novelo de sintomas psicossomáticos. Todas as minhas doenças, reais e imaginárias, decidiram acompanhar-me nestas últimas semanas. Suspeito que arranjei uma amiga para a vida chamada úlcera nervosa, mas tenho demasiado medo de endoscopias para o confirmar. Eu nem sequer gosto de tirar selfies, quanto mais enfiar câmeras pela goela abaixo. Bom, podia ser pior... podiam entrar por outro lado!!!!

Sentia-me sempre cheia de sede. Não se devia necessariamente às quantidades absurdas de café que andava a ingerir e me mantinham num nível de desidratação física a roçar o perigoso e de excitação a tanger o imbecil, mas conhecem aquele sentimento de quando precisamos de um copo de água e os segundos até o levarmos à boca e matarmos a sede parecem intermináveis? Era assim que me sentia. Quase a levar o copo à boca, mas sem o conseguir fazer e finalmente acabar com aquela sede.
Daqui.
Até que chegou o dia. Muni-me das minhas cópias, do meu currículo e de mais não sei quantos documentos que me pediram como oferendas ao grande deus da burocracia. Debaixo do braço carregava o equivalente ao sacrifício de uma pequena floresta, mas se era esse o preço a pagar pelo fim do doutoramento, eu estava disposta a suspender os meus ímpetos ecológicos por um dia. Depois compenso a granel. Agora que me recordo vou ter de entregar isto vezes nove daqui a pouco tempo, mas lá chegaremos. Parece que a revolução digital ainda está por chegar ao ISCTE.

Encadernei, bati à porta do departamento que gere o terceiro ciclo e murmurei emocionada "É para entregar a tese...". E pronto, o meu destino estava cumprido, as funcionárias públicas levantaram-se em êxtase, viram-se muitas lágrimas nos seus apáticos olhos, palmas soaram e a partir desse momento passei a ocupar o meu lugar no Olimpo Académico longe dos demais camponeses. Ah ah ah. 

Daqui.
A verdade é que mal acabei de escrever se abateu sobre mim um enorme vazio. Bem ou mal, a tese acompanhou-me nos últimos anos. Como aquela amiga de infância de quem não nos conseguimos afastar apesar de não nos dizer já muito, mas que continua lá, teimando em telefonar e estar connosco de quando em vez mesmo havendo pouco sobre o que conversar para além de recordações nem sempre felizes. O que se segue depois da entrega, foi sempre isso o que me perguntei. Faço o quê com este tempo que me sobra? Que desculpa devo usar agora quando não quiser estar com gente chata? Estou a preparar a defesa?... Isso só pega até maio, depois tenho mesmo de voltar a estar com - ugh - pessoas. O que é ter tempo livre? Desconheço. O meu ócio e lazer faziam-se sempre acompanhar de uma consciência pesada, carregada de livros, artigos e prazos por cumprir.

E agora que escrevi um livro de 300 páginas, - isto fica só entre nós para vos convencer a comprar uma cópia num futuro próximo - que recebeu elogios pela maneira como estava escrito de diferentes pessoas e que "é prazeroso de se ler" (estou a citar a minha orientadora que já leu muita tese chata na vida), o que é suposto fazer a seguir? Confesso que ainda não consegui parar, relaxar ou descansar. Há quem diga que estou de ressaca. Eu acho que estou mais stressada do que estava antes da entrega. Já comecei a tratar de um artigo para publicar, já limpei a fundo e destralhei a casa toda como uma Marie Kondo em ácidos, mandei um terço dos meus haveres para o lixo ou dei-os (incluindo o carregador do portátil que não faço ideia onde o meti!!!), tratei de toda a burocracia que andava a adiar e a arrumar na categoria "faço depois de entregar a tese".

Daqui.
Entretanto essas coisas estão a esgotar-se e eu continuo a tentar perceber que Joana é esta que acabou o doutoramento, que se mudou de armas e bagagens cá para casa e que já não está a fazer a tese mas que ainda não sabe que vai fazer a seguir. Está ali sentada no sofá, por vezes deitada, no meio de gatos, a ver séries de televisão e a pensar que deveria era estar a trabalhar, mas não sabe em quê. É uma Joana que ainda tem bem presente na memória os "finalmentes" que ouviu depois de entregar a tese vindos de pessoas que nunca na vida hão-de escrever um doutoramento. Ou daquelas que exprimem inveja porque "quem lhes dera a elas não ter nada para fazer" ou "que sorte, quem lhes dera estar de férias". Isto da sorte dá muito trabalho, sabem?...

Daqui.
Esta é também uma Joana que conhece bem os caminhos que não quer voltar a trilhar e portanto não os quer retomar apenas para preencher o vazio que a tese lhe deixou. Que se lembra bem dos amigos que lhe deram os parabéns e dos que a ajudaram nos últimos dias. É uma Joana que começou a aprender a costurar e tem uma máquina nova que se vai pagar nas bainhas que as suas curtas pernas a obrigam a mandar fazer sempre que compra umas calças novas. É aquela Joana que quer mais Antropologia na sua vida, mas cuja Antropologia recente ainda a satura. É uma Joana que não sabe ainda que Joana quer ser, mas que está entusiasmada e muito orgulhosa de si mesma por ter escrito uma tese que se lê como um livro e que aguarda uma defesa entre o impaciente e o ansioso.

Enfim, é a Joana de sempre. 


* Na verdade ainda não podem. Também têm de aguardar pela defesa. Ah ah ah.

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Comments

  1. Uauauauauau! Parabéns pelo semi-término da tese. Compreendo que estejas mais stressada do que antes, afinal, viveste muito tempo nesta ansiedade e neste pânico para conseguir fazer tudo a tempo e entregar tudo direitinho, porém, estás verdadeiramente de parabéns. É uma meta incrível para se atingir e tenho a certeza que mereces estes momentos de descontração, por isso, tenta aproveitá-los como tal. Mereces, Senhora-Doutora-Professora!
    Não esquecendo que não se deve evitar demasiado as - uhhhg - pessoas. Tens de voltar à socialite. 😅
    Beijo enorme 🌻

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    1. Então SENHORA DOUTORA PROFESSORA, os meus parabéns pelo feito. O meu desejo é que te corra tudo pelo melhor, e que agora a ansiedade vá embora de vez, que eu sei bem que viver com ansiedade nos faz muito mal à saúde. Agora é voltar à rotina e descansar também! Um beijinho e bom ano.

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