Psicopatos.


Daqui.

Antes de mais, nada temam. Estou viva. Às vezes até eu duvido da minha própria existência, mas verdade seja dita, ainda por cá ando. O coração bate, os pulmões inspiram e expiram, as pernas mexem. Já a cabeça por vezes viaja até Plutão. 

Os últimos meses têm reflectido uma aprendizagem e sido um teste de resistência à minha paciência. Desde dezembro que aguardo a marcação da defesa da tese de doutoramento, o que até nem é necessariamente um mau timing. Vejamos, se me atrasei um bom par de anos a escrever a dita, e fazendo fé na fórmula da Charlotte do "Sexo e a Cidade" que para esquecer um amante necessitamos de metade do tempo passado com o mesmo, ainda estou capaz de ter de aguardar mais de um ano até que me marquem a defesa. Portanto até lá tenho de acalmar os nervos, focar-me noutros projectos e parar de engendrar cenários catastróficos sempre que me aventuro a planear o desenrolar desse momento.

Não, verdade seja a dita, não estou efectivamente com receio. O que eu não gosto propriamente é de falar em público, fico sempre um bocado angustiada quando vejo vários pares de olhos pousarem em mim quais borboletas ansiosas à espera que diga algo de interessante. Acho que consigo identificar a fonte desse mal-estar quando, era eu uma estudante de mestrado, fui a Londres assistir a uma conferência. Do meu name tag constava também a minha filiação académica e, quando as pessoas liam University of Cambridge, vinham falar comigo na esperança de que tivesse algo de interessante para lhes dizer. Interessante talvez não seja a palavra certa, mais brilhante. Não sei se me confundiam com o Stephen Hawking quando viam Cambridge escrito no meu peito, mas acredito que a minha falta de articulação verbal após as perguntas não as tenha ajudado a dissipar as dúvidas se eu não seria efectivamente o génio da física. Os meus pensamentos mais profundos surgem-me frequentemente na casa de banho, mas como parecia mal convidar aquela gente toda que assistia à conferência para me ver a tomar duche, deixei-as com uma imagem de mim que provavelmente não corresponderia às expectativas. Assim de repente é difícil arrancarem-me um comentário brilhante, já uma observação sarcástica...

Porém, mesmo isso está relativamente - espero! - ultrapassado desde que comecei a dar aulas. Falar de algo que, já nem sabia, me apaixona, como é o caso da Antropologia, tem-me dado uma fluidez do discurso que nem sabia que tinha. Sou capaz de estar várias horas seguidas a enumerar exemplos etnográficos, a relacionar teorias e curiosidades, o que não deve ser necessariamente fácil de digerir para os meus alunos. Por falar nisso, alguém tem dicas sobre como lidar com jovens adultos imbecis? Asking for a friend.

Por isso, quando chegar a altura da malvada defesa espero já ter o processo todo integrado e racionalizado. Quero que seja um momento de celebração e sei que naquela sala ninguém estará mais habilitado para falar do meu trabalho do que eu, mas há sempre a possibilidade de me fazerem alguma pergunta inesperada ou de encontrarem erros óbvios que eu me esforcei por esconder em 300 páginas que já nem eu tenho paciência para ler. Seja como for, como disse a minha amiga Ana, mesmo que corra mal, são apenas duas horas da minha vida. E a seguir esperam-me duas garrafas de champanhe com o meu nome, por isso, bem vistas as coisas, nem me parece mau de todo.

Entretanto, para além das aulas e de um artigo que ainda preciso de escrever, a minha vida tem sido um bocado paradinha nos últimos meses. Fora as aulas de costura que me entretiveram durante três meses e me ajudaram a aumentar o meu armário - e o do meu sobrinho mais novo -, pouco mais tenho feito para além de usufruir da companhia dos meus gatos. Ando com vontade de cozinhar, mas não de partilhar tudo o que me passa pela cozinha. Ando com vontade de passear, mas não dá para ir para muito longe não vão os serviços académicos marcar-me a defesa e eu estar a descobrir a minha essência em Timbuktu. 

Quer dizer, verdade seja dita, tenho tido alguns encontros de terceiro grau com personagens - virtuais e reais - que não lembra ao diabo. Isso sem dúvida que tem animado os meus dias! Por vezes penso para com os meus botões: "Terei mel para malucos ou estarei clinicamente louca e ninguém me avisou?". Acho que a minha próxima tese será sobre este tópico, assim nem me desvio muito do tema da saúde mental que foi o foco da primeira. Já me estou a imaginar expert neste campo, a dar conferências onde loquazmente exporei toda a minha experiência com insanos, débeis, vulgos totós. Será esse o meu momento de glória? Partilhar com os outros como sobrevivi à estupidez alheia? 

A vida começa do outro lado da defesa do doutoramento. Ou assim espero.


"A loucura, longe de ser uma anomalia, é a condição normal humana. Não ter consciência dela, e ela não ser grande, é ser homem normal. Não ter consciência dela e ela ser grande, é ser louco. Ter consciência dela e ela ser pequena é ser desiludido. Ter consciência dela e ela ser grande é ser génio."

- Fernando Pessoa 




Comments

  1. Como lidar com jovens adultos imbecis?
    1) Perguntar se estão naquelas aulas obrigados, e se sabem que o ensino obrigatório termina no 12.º.
    2) Dizer-lhe directamente que podem fazer a cadeira noutro ano.
    3) Afirmar a cada aula que passa que aquilo é uma espécie de ditadura e tem regras.
    4) Relembrar que têm de seguir as regras TODAS as aulas.
    5) Perguntar se se comportam assim em casa. E ter um aluno que te diz "alguns pais são piores em casa do que nós". E aí esquece todos os passos anteriores e encara a coisa com toda a naturalidade, aquela que aparentemente os teus colegas têm pelos seus anos de experiência a ignorar jovens adultos imbecis.

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    1. Adorei o comentário e vou segui-lo à risca. Afinal, quantas vezes é mesmo preciso avisar que não é para estar no facebook durante a aula e que esta começa à hora marcada e não 15 minutos depois para dar tempo que todos fumem, bebam café e ponham a conversa em dia?!

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  2. Feliz Páscoa,...
    Beijinhos,
    Espero por ti em:
    strawberrycandymoreira.blogspot.pt
    http://www.facebook.com/omeurefugioculinario
    https://www.instagram.com/marysolianimoreira/

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  3. Se não tivesse falado contigo nos entretantos também desconfiaria da tua existência :p
    Aliás acho-te absolutamente incrível por conseguires lidar com isto tudo. Neste momento eu já teria sido internada !
    Tenta aparecer-nos mais vezes, apesar de tudo, é as minha lufada de ar fresco :D
    Um abraço

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    1. não me ligues, já sabes que adoro um bom drama pessoal! as coisas podiam ser mais difíceis e sem dúvida que há muita coisa boa neste interregno também. beijinho e boa páscoa

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  4. Não ponhas muita fé no começo da vida depois do doutoramento! :-D Já se sabe que as expetativas... Seja como for, vai ser o fim de uma etapa e o começo de outra! Beijinhos

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    1. sim, essa frase saiu-me com sarcasmo. pela experiência dos meus colegas, a vida que nos espera após o doutoramento não é o mar de rosas que pensamos quando começámos. mas sem dúvida que será outra vida e disso já começo a precisar! bjs

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