Um banana bread e algumas novidades deste lado.


Já tinha esta receita aqui há meses para a publicar, juntamente com outra que repousará nos rascunhos até que os bons dias voltem e possam cozinhar com tomate da época e local. Por agora ficam com este pão de banana e chocolate sem glúten nem açúcar, ideal para quem não os consome ou pretende evitá-los na sua alimentação. Eu gosto de experimentar várias receitas, sabores e ingredientes, pelo que a razão que me levou a fazê-lo não se prende com qualquer tipo de dieta ou intolerância alimentar. A verdade é que há tanto tempo que não publicava aqui receitas que senti vontade de vos oferecer qualquer coisa, mesmo que se tratasse de uma adaptação de outro blogue. Aliás, a receita apenas serve de desculpa para vos contar as minhas novidades...

Começando pela mais importante, já me marcaram a defesa da tese de doutoramento. Sim, esta longa aventura cheia de desventuras que tem sido o terceiro ciclo académico finalmente verá o seu fim! Para ser honesta, apesar de ter recebido a notificação por email como se de um soco dado por uma mão gelada se tratasse, logo de seguida fui presenteada com uma sensação de alívio. Primeiro, porque a data escolhida é lá para meados de junho, o que significa que tenho muito tempo para me preparar. Sim, eu sei que o tempo passa a correr, mas se fosse para a semana seria bem pior, não é?

Segundo, porque finalmente há um dia em concreto para que este filme termine. Vocês talvez não tenham noção, mas tudo isto começou em 2007... Entre concorrer à bolsa, fazer o mestrado em Cambridge, voltar para Portugal para o doutoramento, as aulas, o trabalho de campo, a interrupção e o tempo a escrever a dita cuja, passaram-se 11 anos e, francamente, nunca pensei que tivesse um fim. Este estava atirado lá para a frente numa data incerta. Agora a data já está certa e acima de tudo, vai ser bom dizer adeus à tese (e nunca mais vos chateio com isto, só vantagens!) e começar outro capítulo, seja ele qual for. Quer dizer, qualquer não será bem assim, porque isto é tudo muito bonito de ser mindful e não criar expectativas, mas ninguém se lança num doutoramento para acabar a lavar escadas. Porém, se for esse o meu destino, que seja. Nunca Lisboa verá escadas tão bem lavadas como as minhas. 

Entretanto as aulas de antropologia continuam e, caramba, se não têm sido uma aprendizagem frutuosa para o meu lado! Eu a pensar que ia para lá ensinar e fui aprender. Ele há cada uma... A primeira coisa que aprendi foi que podemos não gostar dos nossos alunos. Sempre pensei que os professores estivessem acima desse tipo de sentimentos mesquinhos, que o seu código de honra os obrigasse a uma certa neutralidade e o gosto por ensinar se encontrasse acima de qualquer outra motivação. Mas agora que me encontro do outro lado da barricada dou por mim a pensar "coitados dos meus professores". É que vocês não sabem nem teriam maneira de adivinhar porque eu aqui sou um doce, mas a verdade é que eu sou super irritante. Sempre fui e sempre serei. E houve professores que passaram um mau bocado comigo. Alguns porque abusaram do seu poderzinho e isso fez ricochete no meu mau feitio. Outros sofreram porque eu sou uma pessoa muito intensa e nunca fui às aulas para brincar. Levava muito a peito aquela treta do "neste semestre não dou mais do que 16..." ou o clássico "o 20 é para Deus".

E depois houve aqueles casos de professores que me marcaram e que ainda estão presentes na minha vida, como a minha querida stora de alemão que nos últimos anos se transformou em minha pen friend depois a ter encontrado por acaso a passear perto de minha casa, que me trata por "a minha Joaninha" e diz que eu sou igual à sua neta. E o António Baltazar que me ensinou a gostar de História, e a Ângela que me deu aulas de português durante muitos anos, e a Zé que me escreveu no livro de curso que foi um prazer ensinar-me porque os meus olhos enormes iluminavam a sala... (não, eu já fiz análises: não é tiróide).

Voltando aos alunos... De maneira alguma odeio a turma que me calhou, mas é difícil aturar alguns feitios num grupo de apenas 9, cada um apaparicado à sua maneira por vários anos de ensino displicente e facilitador. Os que voltaram às aulas muito tempo depois e que, por fazerem parte das estatísticas, são carregados ao colo até que passem a todas as disciplinas. Os que acham que são demasiado espertos para estar ali e não distinguem o à do á, mas que insistem em ter sempre a última palavra a dizer em qualquer conversa, mesmo que esta seja mais uma prova de ignorância. Os que não lêem duas folhas de um artigo (ou que o dividem em 3 e apenas se dedicam à parte que lhes coube), a não ser que este venha publicado num post do facebook. Os que chegam às aulas a horas e saem 20 minutos para fumar, beber um café e por a conversa em dia enquanto os outros ficam à espera deles, mas que depois são extra exigentes com os horários dos intervalos e de saída. 

Mas os estupores também têm coisas boas. Para já chamam-me professora que é muito giro e eu adoro. Por acaso não é bem professora que me chamam, é mais "Ó'professora", como se eu fosse irlandesa. Apresentam os textos - a contragosto, sempre, porque a papinha feita é muito mais fácil de engolir e é a isso que foram habituados  - a olhar para mim à espera de aprovação e validação. Da primeira vez que o fizeram foi especialmente interessante porque eu não entendi logo porque olhavam tanto para mim e só depois me lembrei "ah pois, eu devia estar a avaliá-los!". Desculpem, sou nova nestas andanças também.

São queridos também porque se riem das minhas piadas e isso dá sempre direito a pontos extra, ligam o computador e o projector quando eu preciso e, como se não bastasse, contam-me imensas coisas das suas vidas, mostram-me fotos das suas viagens e partilham comigo o que pretendem fazer no futuro. Gosto da sensação que tudo o que sabem sobre antropologia fui eu que lhes ensinei, que mesmo não querendo vou deixar uma pequena marca nas suas vidas (resta saber se boa, se má...) e que não hão-de ouvir as palavras "etnografia", "raça" ou "cultura" sem pensar nos meus olhos enormes a tentar que adquiram espírito crítico face a tudo o que sabem ou leram na vida. 

Pode parecer que não, mas de cada vez que volto para Lisboa, dada a aula e já a pensar na seguinte, viajo com a sensação que por mim continuava. Só mais uma aula, só mais um pouco de matéria. Deixem-me falar sobre o que gosto, deixem-me tentar mudar o mundo começando pelos que se sentam voluntariamente para me ouvir falar. E isso compensa muitas vezes o seu olhar vazio quando lhes tento incutir teoria antropológica e sei que apenas o corpo está lá, o espírito já viajou. Assim mais ou menos como o do meu marido quando o arrasto pelos corredores do IKEA.





Pão de banana e chocolate

receita adaptada de Le Passe Vite

150g de farinha de trigo sarraceno integral
100g de farinha de arroz
100g de farinha maizena (amido de milho)
4 bananas maduras
2 colheres de sopa de manteiga de amêndoa crocante
6 colheres de sopa de azeite extra virgem
100g de frutos secos (nozes, amêndoas, pevides de abóbora e sementes de girassol)
100g de chocolate de culinária ou negro
1 colher de chá de bicarbonato de sódio
sumo de 1/2 limão
1 pitada de sal marinho

Ligar o forno nos 180º e preparar uma forma de bolo inglês (uso de silicone, em alternativa forrar uma forma com papel vegetal ou untar com manteiga e salpicar com farinha). Picar os frutos secos grosseiramente e torrá-los uns minutos numa frigideira anti-aderente. Juntar os ingredientes secos numa taça grande. Com a batedeira bater a manteiga de amêndoa e o azeite. Adicionar as bananas e bater mais um pouco até conseguir uma massa uniforme. Aos poucos juntar os ingredientes secos a esta mistura, batendo sempre numa velocidade baixa. Picar grosseiramente também o chocolate, deixando pedaços um pouco maiores do que os outros. Envolver e levar ao forno cerca de 45m ou até que o bolo fique bem assado (teste do palito). Desenformar quando estiver frio.

Tempo de preparação: 60m
Dificuldade: médio
Serve 6
SaveSaveSaveSave

Comments

  1. Gosto mesmo de te ler, é como um livro (e sim aguentei até ao fim hehe).
    A minha parte preferida foi "mas os estupores também têm coisas boas" e apesar de me rir senti que realmente estás a gostar imenso do que fazes e que não mereces acabar a lavar escadas em Lisboa ou noutra parte do país. Tens uma marca a deixar nessas vidas, e também eu tenho aqueles professores que odiei mas muitos mais os que adorei e ainda hoje falo. Há pessoas que são espetaculares e nos incutem cenas para a vida toda, e tu poderás ser uma delas na vida dos teus alunos! O banana bread está mesmo bom com os pedacinhos de chocolate :) ando tão gulosa! Um beijinho.

    ReplyDelete
    Replies
    1. este banana bread fica óptimo com aqueles bocados de chocolate semi derretidos. é uma perdição! sim, tu sabes que eu estou a gostar muito da experiência e a mais valia é exactamente tudo aquilo que cai fora do expectável e que me está a obrigar a crescer e a aprender com isto também. o resto logo se verá... :)

      Delete
  2. Que bom aspeto.

    Beijinhos,
    Clarinha
    https://receitasetruquesdaclarinha.blogspot.pt/2018/05/leite-creme-de-morango.html

    ReplyDelete

Post a Comment

Popular Posts